Le noir du deuil

Reflexão de repente pesada para um setembro deliciosamente ensolarado onde o outono se anuncia e Paris vai ficando aos poucos amarela. Mas vamos lá!

Essa semana o museu recebeu uma doação que me comoveu. Tudo bem que me comovo fácil, ainda mais quando se trata de objetos que representam mais do que um modo ou costume de um determinado período, acabam sendo o testemunho de uma vida. Aquela velha história: o corpo vai, as roupas ficam.Para alguns pode soar mórbido. Para mim é fascinante.

Pois a doação compreendia un corsage e dois boleros de criança, datando do XIX, período do Segundo Império. E a investigação, mesmo que breve, não deixa dúvidas: tratam-se de roupas de luto.

E pela primeira vez tive uma sensação desconfortável em relação ao preto. Minha vó sempre faz o comentário, tom de quase reprovação,  “parece uma viúva, toda de preto!”, cada vez que apareço em total look com minha cor favorita. Certamente para ela, que nasceu nos anos 1920, bem longe ainda das revoluções flower power, preto e luto ainda são associações muito fortes.

O luto seria a reação de um sentimento de perda definitiva, associado especialmente à morte. E nesse ritual de passagem à aceitaçao da perda, a aparência também se transforma. No século XIX, periodo das roupas que vi essa semana, o luto poderia durar mais de um ano. Num primeiro momento,ou perído de “grade luto” a única cor permitda é o preto. Nada de ornamentos. Nem muitos sorrisos.  No período seguinte, ou “meio-luto”, é permitido o uso do violeta, do mauva e do cinza. A esposa que perde o marido poderia ficar “condenada” a usar um bonnet, que termina em ponta sobre a testa (igualzinho ao da veuve das mais célebres, Mme Clicquot) até casar-se de novo-se a idade permitisse outro casamento.

Sendo estas “regras” válidas não apenas para a viúva, em momentos de epidemias ou guerras, é possível encontrar familias inteiras vestidas de luto- uma espiada rápida em retratos do passado comprovam o fato.

Mas o que mais me chamou a atenção, foram as marcas  dessas roupas que pude ver, vários indícios de que foram usadas durante muito tempo. E roupas de luto de crianças são vazias de poesia… Não bastasse a perda, a obrigação de vesti-la.

Veuve-Clicquot

La veuve Clicquot, 1820

Fichier:Inconsolable grief.jpg

Chagrin inconsolable, de Kramskoy, 1884.

Hoje vou de Cortázar

Mesmo que o título mais adequado seja “ levantando acampamento”. Pela quinta vez.Rumo a mais um acampamento.

A impressão que tenho é que posso estalar os dedos e “meus pertences” já se acomodam, quase sozinhos, dento das malas. Triagem rápida, não há espaço para aquilo que esta meio gasto, pouco útil, custou barato e usei só uma vez. Se bem que o supérfluo consegue se compactar de um jeito…E por mais que eu tenha exercitado o desapego, guardar cacarecos está nos meus genes! Sabe bem quem conhece meu avô…

Mas estou passando aqui só para publicar um texto que me caiu nos olhos essa semana. São as Instrucciones para subir una escalera al revés , de Julio Cortázar. E taí, é bem isso:me siento subiendo  las escaleras de espaldas…Coisas de quem está vivendo o resultado deste tão insólito processo.

En un lugar de la bibliografía del que no quiero acordarme, se explicó alguna vez que hay escaleras para subir y escaleras para bajar; lo que no se dijo entonces es que también puede haber escaleras para ir hacia atrás. Los usuarios de estos útiles artefactos comprenderán, sin excesivo esfuerzo, que cualquier escalera va hacia atrás si uno la sube de espaldas, pero lo que en esos casos está por verse es el resultado de tan insólito proceso. Hágase la prueba con cualquier escalera exterior. Vencido el primer sentimiento de incomodidad e incluso de vértigo, se descubrirá a cada peldaño un nuevo ámbito que, si bien forma parte del ámbito del peldaño precedente, al mismo tiempo lo corrige, lo critica y lo ensancha. Piénsese que muy poco antes, la última vez que se había trepado en la forma usual por esa escalera, el mundo de atrás quedaba abolido por la escalera misma, su hipnótica sucesión de peldaños; en cambio, bastará subirla de espaldas para que un horizonte limitado al comienzo por la tapia del jardín, salte ahora hasta el campito de los Peñaloza, abarque luego el molino de la Turca, estalle en los álamos del cementerio y, con un poco de suerte, llegue hasta el horizonte de verdad, el de la definición que nos enseñaba la señorita de tercer grado. ¿Y el cielo? ¿Y las nubes? Cuéntelas cuando esté en lo más alto, bébase el cielo que le cae en plena cara desde su inmenso embudo. A lo mejor después, cuando gire en redondo y entre en el piso alto de su casa, en su vida doméstica y diaria, comprenderá que también allí había que mirar muchas cosas en esa forma, que también en una boca, un amor, una novela, había que subir hacia atrás. Pero tenga cuidado, es fácil tropezar y caerse. Hay cosas que sólo se dejan ver mientras se sube hacia atrás y otras que no quieren, que tienen miedo de ese ascenso que las obliga a desnudarse tanto; obstinadas en su nivel y en su máscara se vengan cruelmente del que sube de espaldas para ver lo otro, el campito de los Peñaloza o los álamos del cementerio. Cuidado con esa silla; cuidado con esa mujer.

Ah, sim!Isso é um copy/paste do site http://www.escribirte.com.ar

As parisienses

O 7 de setembro na França nada teve de verde e amarelo. Foi chamado le mardi noir por causa das manifestações e  da greve dos transportes, que deixou o serviço mais lento.

Mesmo assim tive o privilégio de um casal charmoso, logo na minha frente, ela com sua bolsinha de mão, seu trench bege e el de foulard, chamando ela de vous, coisa pouco comum em um casal mesmo levando em conta a geração de ambos. Dessas coisas que de tão raras são quase poéticas.

Mas a melhor conversa do dia foi a discussão afiadíssima de M. Gourmand e Mme. Ludique em torno justamente da figura da parisiense….O assunto ainda vai reverberar! Já faz ecos  na Elle da semana passada que, em uma reportagem ótima, daquelas cheias do mais fino e puro humor francês, que tentava mostrar por que todas as mulheres  do mundo invejam e querem ser uma francesa de Paris- claro que a pretensão francesa também não faltou!

A imagem da parisiense nasce, independente e a passos rápidos, ainda no século XIX, na imagem da grisette,a costureirinha ou vendedora dos grands magasins  que mora nos quartinhos apertados dos telhados de Paris. Nos anos 20 corta o cabelo, ganha ares de garçonne, nos anos 50 vai de saia rodada e salto alto, à la Bettina. Corpo magro de Ines de la Fressange, sensualidade de Deneuve…

Não perde nunca o nonchalance, o ar negligé…Anda por aí vestida de Isabel Marant, bolsa Vanessa Bruno, óculos de armações grossas e cabelo cuidadosamente despenteado.

Pode ser Charlotte que tem atitude muito mais Gainsburg do que Birkin. Ou por que não Carla, a Bruni?- sucessora à altura de Josephine, a de Napoleão.

Não abandona o cigarro, é irônica com graça e um narizinho que só se herda em Paris. Pode ser a concièrge, a puta, a modelo, atriz e dançarina.

Verdade é que la parisienne inspira. E olha ela dando o ar da graça- mesmo que seja uma parisiense extrangeira e a voz seja a do icône-  contribuindo com o imaginário que nos faz sonhar com Paris.

Para mim, a imbatível é Gabrielle, mesmo sendo parisiense forjada…

Ah, e ainda foi aniversátio da minha querida Charlotte  (com chapagne rosé porque somos meninas!), uma petite pariseinne comme il faut…

Pausa para Londres

Foi um reencontro depois de muito tempo….E na minha memória de adolescente que pela primeira vez sai sozinha de casa, Londres era maior, mais bonita e menos cinza- mas não se pode esquecer que memórias tem sempre uma tendência ao romance. Ou ao drama….

Mas nada que diminuisse a minha afinidade com a cidade. Não sei explicar.

Coloridos que são só de Londres, longas caminhadas, o cheiro do metrô que não mudou- mesmo se as estações estão novas e limpíssimas!-encontros, a descoberta que a cerveja que melhor combina com a cidade realmente é a do tipo ale- com fish and chips, of course!- museus gratuitos e um “how can I help you?”, com aquela pronúncia que torna Jude Law ainda mais irresistível.

Vi Grace Kelly no Victoria and Albert. Uma exposição correta. Para mim, faltou o vestido de noiva. As jóias não eram abundantes pois, afinal, Van Cleef, ao que pareça, concedia empréstimos a princesa.

Vi Margiela- awesome!

Vi The Surreal House e até agora estou pensando  nas terorias de Freud e nos surrealistas, na casa que significa o corpo, no corpo que presentifica a identidade….Fez tanto sentido para mim que tenho vivido um ano surreal- especialmente em relação a casa! E experimenta ficar sem noção de casa para ver o que acontece com o corpo e a cabeça… (Ainda bem que Freud explica!)

Ainda preciso registrar que o Museum of London é melhor que a Disney!- e as pessoas ainda saem de lá um pouquinho mais cultas…23 de agosto, por exemplo, foi o dia da execução de William Wallace.

Na mala, Orlando-que lentamente Virginia Woolf vai transformando em Vita, numa longuíssima carta de amor.

DSC08687

DSC08743

E um ano passou…

França…Há um ano!

E é meio difícil explicar essa dimensão paralela, que faz pensar que o mundo- se não parou- passou a girar em um ritmo diferente. A vida de agora. A vida que ficou. A vida que voltará- e a que não voltará…

“Comemorarei” a data em Londres, fim de semana prolongado com direito a markets, markets, exposições, exposições e pubs- afinal…

E eis que me deparo com  com o que seria um definição, em inglês, para saudades….

Saudade was once described as “the love that remains” or “the love that
stays” after someone is gone. Saudade is the recollection of feelings,
experiences, places or events that once brought excitement, pleasure, which now triggers the senses and makes one live again. It
can be described as an emptiness, like someone or something that should be there in a particular moment is missing, and one feels this absence.

É. Saudade dói. Ainda mais quando é a saudades da vida que não ficou e que não voltará.

Enfim,saudade boa porque virou só saudade.

O Musée Galliera

Eu às vezes tenho vontade de dizer “o meu museu”…Sem dúvidas o tempo- mesmo que pouco- passado nesse lugar para mim já é uma espécie de divisor de águas que me fez ter coragem de assumir que, daqui para a frente, meu caminho na moda não será mais o mesmo. E sabe aquela máxima que diz que quanto mais uma pessoa sabe, mais humilde ela é? (eu ouvi isso várias vezes durante o meu segundo grau, de repente isso é coisa de colégio católico…),pois bem, um cafezinho com o pessoal do museu só confirma isso…E como eu aprendo nesses cafezinhos!

Mas fato é que o Musée de la Mode de la Ville de Paris, em relação a sua organização,digamos, “física”, existe há pouco tempo. O Palais Galliera- que fica quase às margens do Sena, bastante próximo do Trocadéro- transforma-se em museu de moda apenas em 1977.

O prédio já tem uma história bastante interessante, pois foi construído exatamente para ser um museu…A Duquesa de Galliera tinha como interesse construir um edifício que abrigasse suas coleções particulares, que ela deseja va doar à cidade de Paris. No ano de 1878, confia o projeto ao arquiteto Leon Gignain- que por sua fez confia as estruturas metálicas a Gustav Eiffel. Infelizmente a duquesa morre antes de ver seu sonho realizado. A prefeitura de Paris se encarrega da construção da obra e, em 1901, o espaço passa a abrigar o Musée d´Art Industriel.

A coleção do Musée de la Mode  nasce da curiosidade de Maurice Leloir, pintor e ilustrador, apaixonado pelo século XVIII,que decide fundar a Societé de la Histoire du Costume, espaço voltado para discussões, publicações, cursos e conferências. A coleção Leloir é doada para a cidade de Paris em 1920 e só em 1956 o museu passa a “existir”, primeiramente como um departamento do Musée Carnavalet. Depois ganha agumas salas, pouco adequadas, no subsolo do Musée d´Art Moderne. E, finalmente, o imponente prédio de gosto neoclássico da Av.Pierre 1er de Serbie!

Hoje o museu conta com um acervo de mais de 100.000 peças- só de acessórios, são mais de 40.000. Objetos que contam um pouco sobre os modos e estilo de vida da França- especialmente de Paris!- do século XVIII aos nossos dias.

No momento, o museu está fechado por motivo de reformas. Mas isso não é sinônimo de “inatividade”…Só neste momento, a equipe da reserva técnica está envolvida em uma exposição sobre a história do casamento que acontece no Oriente Médio (!) e na restauração preventiva de peças de Mme Grès- que  ganhará  exposição em breve. E os conservadores já fazem suas pesquisas para a exposição de reabertura do museu, que deverá acontecer em 2012.

E para mim é meta estar em Paris nesta data…

 

DSC08316

Did devil make me do it?

Manhã quase de outono em Paris. Metrô sonolento, um dos cartazes do Rock en Seine ainda resta, com um trecho de canção que diz algo como “ the devil inside wont control my fate.”

Pareceu até complemento de uma conversa brilhante de ontem- sempre Fabienne- que nesta manhã cinzenta soou ainda mais  verdadeira… Fálavamos sobre o diabo, sobre o endiabrar-se. Mas não esse diabo judaico-cristão, senhor do castigo, responsável pelo mal numa cultura de sacríficio e recompensa.

Nos referíamos a esse man of wealth and taste, com seu sorrisinho envolvente, conversinha sedutora que, mais cedo ou mais tarde aparece  em nossas vidas para provocar o desacômodo. Todo mundo já tomou, ou ainda vai tomar, seu  drinkzinho com o Demo… E vai ver aflorar aquele seu lado não tão bom, não tão politicamente correto, honesto, corajoso. De repente vai se atirar de um precipício, levando outros pela mão, como se isso fosse a coisa mais racional e sensata do mundo.

Pois é esse o seu papel. Porque somos simples seres humanos, de carne, osso, hormônios,pensamentos-muitas vezes traiçoeiros,sinuosos.

Conclusão?De nada serve resisitir, a “tentação”- e não falo aqui das “fraquezas da carne”, mas simplesemente de uma condição bem humana:sentir medo, hesitar- é sempre necessária. Por à prova, tornar menos oculto “ o outro lado”, conhecer e conhecer-se. E aí vai de cada um como lidar com essa ressaca infernal.

 

DSC08469